A comida e você

O corpo tem ocupado, nos contextos da revolução eletrônica e da sociabilidade contemporânea, um papel cada vez mais central (quiçá determinante), chegando-se ao “culto do corpo”, à “política do corpo”com todos os seus desdobramentos. (MARCOS PALÁCIOS)

As últimas décadas do século XX foram caracterizadas pelo espetacular, pela supervalorização do aparente, do belo, da imagem que se superpuseram aos aspectos emocionais,intelectuais e afetivos. Quando o novo milênio despontou, encontrou um mundo em que o culto ao corpo era umas das principais características. Segundo Couto, ele “se traduz como uma das grandes expressões humanas da atualidade”2.

Liberado dos pudores que o haviam aprisionado durante tanto tempo, o corpo exibe seus contornos e sua sensualidade, usufruindo a sexualidade sem os limites de outrora.

Mas, por outro lado, este mesmo corpo “liberto” vem sendo escravizado pela ditadura da magreza, condição sine qua non de beleza e saúde. Esta ditadura resulta da busca obsessiva pelo corpo perfeito e da juventude eterna que exige renúncias alimentares e sofrimentos físicos (ginástica, musculação, cooper,bandagens, massagens na base de socos, fornos quentes etc).

A preocupação excessiva com a aparência pode gerar um novo sintoma do mal-estar contemporâneo intitulado “lipofobia” ou pavor de engordar4. Regras tirânicas de beleza são impostas, de modo que quem não se pareça o mínimo possível com os modelos que desfilam em passarelas, sente-se fora dos padrões.

O elo entre alimentação e saúde estreitou-se mais. Manifesta-se na busca frenética pela qualidade de vida. Norteados pela concepção atual, segundo a qual cada um é responsável pela sua longevidade, é possível concluir que as práticas corporais de embelezamento e profiláticas caminharam paralelas às práticas alimentares.

O medo da obesidade é uma síndrome com raízes culturais, cada vez mais prevalente em países ricos, e pode ser situado dentro da categoria de distúrbios alimentares, do qual a anorexia nervosa é o extremo mais patológico.

É importante citar também os procedimentos corporais invasivos: além do modismo das cirurgias estéticas, recorre-se em número crescente às operações para reduzir o estômago e, assim, impedir que o apetite estrague a escultura individual.

A preocupação com a aparência era tamanha na virada do milênio que, segundo uma psicanalista entrevistada, as pessoas estavam procurando ajuda psicológica, não mais para falar sobre dificuldades de encontrar o prazer sexual. A insatisfação voltou-se para a imagem corporal5.(alguns trechos pinçados do Livro Comida:prazeres e transgressões).

Mas é bom lembrar que não deve haver uma inversão de valores, supervalorizando a forma corporal, a aparência externa e menosprezando o que a comida representa para a parte interna. A alimentação é um ato sério, prazeroso, agradável e a linha divisória entre a boa e má escolha é clara. O objetivo de alimentar-se corretamente não é produzir modelos de beleza, mas acima de tudo, preservar a saúde e a vida.

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