Como fazer para formar bons hábitos alimentares nas crianças?

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A alimentação infantil tem sido um motivo de preocupação para profissionais e pais. E porque o motivo de tanta dor de cabeça?

O desenvolvimento da criança pode ficar prejudicado pela alimentação deficiente?

Alguns marcos permitem obter, de forma rápida, valores médios da estatura e do peso nos períodos de maior crescimento da criança nascida de termo: esta duplica o peso de nascença entre os 5-6 meses, triplica ao ano de idade e quadruplica aos 2 anos. Relativamente à estatura, esta aumenta cerca de 50% aos 12 meses, duplicando até aos 4 anos. Por volta dos 2 anos de idade a criança terá cerca de metade da sua estatura adulta (Carmona da Mota et al., 2002).

Atendendo a estas características do crescimento e desenvolvimento infantil, é lógico considerar que a alimentação, durante os primeiros cinco anos de vida, requer cuidados específicos, nomeadamente em qualidade, quantidade, frequência e até consistência.

No início da vida, o leite materno é o mais adequado e deve ser dado em exclusivo até aos 6 meses de vida da criança. Este é perfeitamente adaptado à sua imaturidade digestiva e, devido às suas características, protege-a de doenças infecciosas e alérgicas, promove um melhor desenvolvimento intelectual e psico-motor e, sobretudo, promove a vinculação, facilitando a interacção mãe-bebé (Levy, 2008; WHO, 2009).

No segundo semestre de vida, com o crescimento e desenvolvimento acelerado, a criança necessita de outros alimentos que lhe permitam fazer face às necessidades biológicas, contribuindo estes progressivamente com 20 a 50% de energia.

A introdução de novos alimentos é, não só necessária, pelos aspectos nutricionais já referidos, mas possível, pela maturação estrutural e funcional dos aparelhos gastro-intestinal, renal e metabólico e pela maturidade dos mecanismos imunológicos do intestino, dado que após os 6 meses há redução da possibilidade de reacções de hipersensibilidade.

 Além disso, o desenvolvimento psicomotor e neuro-comportamental do lactente permite-lhe o controle da cabeça e pescoço e perda do reflexo de extrusão, característica dos bebés até cerca dos 4-5 meses, que os leva a expulsar qualquer alimento mais consistente, depositado na parte anterior da língua e muitas vezes interpretado como recusa por parte da criança, (Silva et al., 2005).

Desta forma, a utilização da colher é possível e deve ser estimulada, pois permite o desenvolvimento de outras competências, como a mastigação e progressiva integração da criança na dieta e refeições da família.

Na sua socialização, a criança aprende sobre a sensação de fome e saciedade e desenvolve a percepção para os sabores e as suas preferências, iniciando a formação do seu comportamento alimentar.

Neste âmbito, as estratégias que os pais utilizam para a criança se alimentar ou para aprender a comer determinados alimentos, podem apresentar estímulos tanto adequados como inadequados, o que vai determinar a aquisição das preferências alimentares da criança e o seu autocontrole na ingestão alimentar (Birch & Fischer).

O desenvolvimento do paladar inicia-se durante a fase lactente, dadas as características sensoriais diversas do leite materno. A composição deste modifica-se à medida que a lactação progride, com diminuição dos níveis de lactose e aumento dos níveis de cloreto, tornando o leite levemente salgado. Essa mudança pode favorecer a aceitação dos alimentos complementares no tempo oportuno (Giugliani & Victora, 2000).

Durante a introdução de novos alimentos, inicia-se a aprendizagem de novos sabores e consistências, a maioria das vezes, acompanhados por sentimentos de stress e ansiedade por parte dos pais.

Num estudo realizado com crianças em idade pré-escolar, verificou que os alimentos não podem apenas ser percebidos visualmente, ou pelo odor, é necessário provar o alimento, mesmo que em pequenas quantidade, para que se produza a sua aceitação.

Perante um sabor novo, a aceitação do alimento ocorre somente após 12-15 apresentações, o que pode determinar a desistência dos pais, justificando que a criança não gosta. Contudo a exposição repetida pode reduzir a neofobia alimentar, (recusa em experimentar alimentos novos), tão frequente na idade pré-escolar, e que tem como resultado uma dieta limitada e pouco diversificada.
Ainda na aprendizagem associada ao sabor, verifica-se haver uma maior aceitação de alimentos desconhecidos quando estes são adocicados. Esta característica de melhor aceitação é inata e tem sido relacionada com as experiências pré-natais de sensibilização pelo contacto com o líquido amniótico, que é aromático e o seu odor influenciado pela dieta da mãe.

Por outro lado, o contato com alimentos calóricos promove uma consequência fisiológica de saciedade, que, associada ao sabor, aumenta a sua aceitação e preferência (Ramos e Stein, 2000), o que justifica a fácil aceitação da maioria das crianças por este tipo de alimentos denominados fast-food. Aí mora o perigo. É preciso cuidado para não ofertar muitos alimentos calóricos, pois isso pode mudar a alimentação da criança até sua fase adulta e trazer obesidade e riscos associados como diabetes tipo 2, hipercolesterolemia, hipertensão e riscos cardíacos.

A consistência dos alimentos é igualmente alvo de aprendizagem. É aconselhável o consumo de alimentos de texturas variadas, pois estas favorecem a maturação da fase oral da deglutição. Uma dieta alimentar pouco consistente, adquirida na infância, pode levar á falta de capacidade muscular, fazendo com que a criança tenha preferência por alimentos mais pastosos, criando um ciclo-vicioso entre a mastigação deficitária e as alterações produzidas por ela.

Repetindo, o contexto social onde as refeições ocorrem é igualmente um fator determinante na aprendizagem alimentar. Fazer as refeições em contexto familiar, na presença dos irmãos, dos amigos e dos pais que lhe servem de modelos e que a elogiam ou chamam à atenção para o comportamento à mesa, influencia a experiência e mesmo os padrões alimentares.

Como podem observar, a criação de bons hábitos alimentares, está intimamente ligada  ao aprendizado com os pais e cuidadores. A presença da família nas refeições é importante, mas a paciência e persistência na oferta de alimentos saudáveis às crianças, também é de suma importância. È às vezes cansativo, exigindo muita paciência por parte dos pais, mas vale a pena investir esse tempo na saúde das crianças.

 

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